Gracias Maestro – Cartas de Buenos Aires por Gisele Texeira

O bandoneonista Emilio Balcarce tinha 82 anos quando deixou a tranqüilidade de sua aposentadoria para participar de um projeto ousado.

Ensinar a jovens músicos os truques e manhas das velhas orquestras tangueiras – trejeitos que não estavam nas partituras, segredos que nunca tinham sido codificados para as novas gerações. Os “yeites”, ou jeitos, de cada uma das orquestras “típicas”.

O convite veio no ano 2000, quando o contrabaixista Ignacio Varchausky criou a Orquestra Escola de Tango e o chamou para dirigi-la, função que exerceu com alegria de menino até 2008, quando realmente parou de trabalhar, aos 90 anos, já com problemas de audição.

Também violinista, arranjador e criador de tangos célebres como “La Bordona”, Emilio Balcarce faleceu na semana passada, aos 92 anos.

Para quem não o conhece, uma boa introdução é o documentário “Si sos brujo”, dirigido pela americana Caroline Neal, que agora divido com vocês.

A película conta todo o processo de criação da orquestra escola, desde a dificuldade de conseguir financiamento até o momento em que chegam – Balcarce e seus primeiros alunos – para uma temporada em Paris. Finaliza com o famoso concerto no Teatro Colón.

É homenagem emocionante a este grande músico que, depois de tantos anos, voltou à cena com uma disposição inacreditável, para ajudar a nova geração a garantir o futuro do tango.

Emilio Balcarce nasceu no bairro portenho de Villa Urquiza e começou a estudar violino aos oito anos. Aos 14 se iniciou aos segredos do bandoneón, com estréia profissional dois anos depois. Não parou mais.

Seus conhecimentos de instrumentos, harmonia e contraponto eram tão apreciados que ao longo de sua carreia foi convocado pelos principais diretores de orquestra, como

Osvaldo Pugliese, com quem tocou por 20 anos, a partir de 1949. Mas também por Aníbal Troilo, Leopoldo Federico e Alfredo Gobbi, para citar alguns.

Em 1968 fundou o “Sexteto tango”, que durou até 1991. Dizem que foi a formação musical mais “viajante” da Argentina. Gravaram 11 discos, atuaram por dois meses seguidos em Paris, fizeram shows pelo mundo todo. Inclusive na Sibéria!

Logo depois Balcarce se retirou e foi viver na cidade de Neuquén, até ser pinçado novamente por Varchausky. Com os “meninos”, gravou dois novos discos – De contrapunto, em 2000, e Bien compadre, em 2004.

Infelizmente, o professor agora não está mais aqui. A escola que leva seu nome, no entanto, prossegue. Em torno de 150 músicos de diferentes países já passaram pelo espaço, que conseguiu reunir no período um acervo de 700 arranjos originais para orquestra típica. Pelo menos sete orquestras foram formadas. Gracias, maestro.

Deixo vocês com o trailer do filme.

Gisele Teixeira é jornalista. Trabalhou em Porto Alegre, Recife e Brasília. Recentemente, mudou-se de mala, cuia e coração para Buenos Aires, de onde mantém o blog Aquí me quedo, com impressões e descobrimentos sobre a capital portenha.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s