Feriado de Carnaval, 35 anos depois

 

Reproduzo artigo publicado no Portal do O Globo, no Blog do Noblat. O texto é de autoria da jornalista Gisele Teixeira. Se você ainda não conhece o blog dela acessem. Está na lista de recomendados do Tango Candango.

O GLOBO/ Blog do Noblat

Cartas de Buenos Aires

Feriado de Carnaval, 35 anos depois

A segunda e terça-feira de carnaval voltarão a ser dias de festa na Argentina em 2011, após sua suspensão imposta pela ditadura militar do país, em 1976. Um decreto aprovado em novembro passado pela presidente Cristina Kirchner restituiu os dias de recesso durante a festa do Rei Momo.

O feriado foi eliminado do calendário porque os militares não queriam gente nas ruas e o carnaval de Buenos Aires sempre teve um caráter de crítica às autoridades.

Provavelmente os brasileiros que estão com viagem marcada para a capital argentina no feriado querem escapar da festa. E vão. Já que a animação carnavalesca não é o forte aqui. Mesmo assim, há um barulhinho.

O principal atrativo do carnaval portenho são as chamadas “murgas”, que existem desde 1920 e foram declaradas patrimônio cultural da cidade em 2007. São agrupações (mais de 180 em Buenos Aires) que misturam música, dança e representação.

O ritmo é marcado pelo “bombo con platillo”, trazido pelos imigrantes espanhóis, que guia a percussão. Os murgueros entoam canções conhecidas como “críticas”, em que ridicularizam autoridades, personagens públicos e acontecimentos recentes, e seguem uma coreografia que mistura bastante balanço de pernas e braços.

As murgas têm laços fortes com os bairros onde nascem. Entre as mais famosas estão os Cometas de Boedo e Los Amantes de la Boca.

Assim como no Brasil, a folia argentina conta com fantasias enfeitadas com lantejoulas e algum brilho. A mais típica e chamativa delas é a “levita”, uma espécie de fraque colorido usado por homens e mulheres, geralmente com o nome, escudo e cores do grupo de cada bairro. Usam também acessórios como luvas, bastões, laços, gravatas e cartolas.

Uma das hipóteses mais aceitas para a origem da murga remete à chegada de escravos africanos à região do Rio da Prata, principalmente a Buenos Aires e Montevidéu (cidade que tem murga de palco, ao contrário da argentina, que é de corso – rua em italiano).

Segundo a pesquisadora de gêneros artísticos populares do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet), a antropóloga Analía Canale, há muita influência africana no ritmo e no tipo de baile.

As roupas coloridas e cheias de brilho seriam a parte de dentro do fraque que os amos davam aos escravos, que o usavam do avesso, aproveitando a cintilância do cetim.

Mesmo quem não quer folia pode aproveitar a ocasião para conhecer a Buenos Aires que normalmente não consta nos guias.

Deixo com vocês. AQUI, um vídeo para que tenham idéia de como é a festa aqui.

PS: Esta hora já estou no Rio de Janeiro, em algum bloco de bairro. Gosto de tango, mas minha alma é carnavalesca.

Gisele Teixeira é jornalista. Trabalhou em Porto Alegre, Recife e Brasília. Recentemente, mudou-se de mala, cuia e coração para Buenos Aires, de onde mantém o blog Aquí me quedo, com impressões e descobrimentos sobre a capital portenha

Crédito: Blog do Noblat

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Gracias Maestro – Cartas de Buenos Aires por Gisele Texeira

O bandoneonista Emilio Balcarce tinha 82 anos quando deixou a tranqüilidade de sua aposentadoria para participar de um projeto ousado.

Ensinar a jovens músicos os truques e manhas das velhas orquestras tangueiras – trejeitos que não estavam nas partituras, segredos que nunca tinham sido codificados para as novas gerações. Os “yeites”, ou jeitos, de cada uma das orquestras “típicas”.

O convite veio no ano 2000, quando o contrabaixista Ignacio Varchausky criou a Orquestra Escola de Tango e o chamou para dirigi-la, função que exerceu com alegria de menino até 2008, quando realmente parou de trabalhar, aos 90 anos, já com problemas de audição.

Também violinista, arranjador e criador de tangos célebres como “La Bordona”, Emilio Balcarce faleceu na semana passada, aos 92 anos.

Para quem não o conhece, uma boa introdução é o documentário “Si sos brujo”, dirigido pela americana Caroline Neal, que agora divido com vocês.

A película conta todo o processo de criação da orquestra escola, desde a dificuldade de conseguir financiamento até o momento em que chegam – Balcarce e seus primeiros alunos – para uma temporada em Paris. Finaliza com o famoso concerto no Teatro Colón.

É homenagem emocionante a este grande músico que, depois de tantos anos, voltou à cena com uma disposição inacreditável, para ajudar a nova geração a garantir o futuro do tango.

Emilio Balcarce nasceu no bairro portenho de Villa Urquiza e começou a estudar violino aos oito anos. Aos 14 se iniciou aos segredos do bandoneón, com estréia profissional dois anos depois. Não parou mais.

Seus conhecimentos de instrumentos, harmonia e contraponto eram tão apreciados que ao longo de sua carreia foi convocado pelos principais diretores de orquestra, como

Osvaldo Pugliese, com quem tocou por 20 anos, a partir de 1949. Mas também por Aníbal Troilo, Leopoldo Federico e Alfredo Gobbi, para citar alguns.

Em 1968 fundou o “Sexteto tango”, que durou até 1991. Dizem que foi a formação musical mais “viajante” da Argentina. Gravaram 11 discos, atuaram por dois meses seguidos em Paris, fizeram shows pelo mundo todo. Inclusive na Sibéria!

Logo depois Balcarce se retirou e foi viver na cidade de Neuquén, até ser pinçado novamente por Varchausky. Com os “meninos”, gravou dois novos discos – De contrapunto, em 2000, e Bien compadre, em 2004.

Infelizmente, o professor agora não está mais aqui. A escola que leva seu nome, no entanto, prossegue. Em torno de 150 músicos de diferentes países já passaram pelo espaço, que conseguiu reunir no período um acervo de 700 arranjos originais para orquestra típica. Pelo menos sete orquestras foram formadas. Gracias, maestro.

Deixo vocês com o trailer do filme.

Gisele Teixeira é jornalista. Trabalhou em Porto Alegre, Recife e Brasília. Recentemente, mudou-se de mala, cuia e coração para Buenos Aires, de onde mantém o blog Aquí me quedo, com impressões e descobrimentos sobre a capital portenha.

 

Cartas de Buenos Aires Tango para iniciados

Blog do Noblat

Enviado por Gisele Texeira 16.11.2010 / 14h40

Cartas de Buenos Aires para iniciados

Todo mundo que vem pela primeira vez a Buenos Aires tem vontade de ir a uma “cena show”, um espetáculo de tango de palco, bem estilizado e com jantar. Mas vira e mexe alguém me pede uma sugestão de “cena show para não turistas”.

Sempre digo a mesma coisa: não existe. É como querer um show de mulatas no Rio de Janeiro para cariocas da gema. Ou show de boleadeiras para gaúchos!

Isso não quer dizer que esses espetáculos não valham à pena. Ao contrário. Os shows de tango são em geral bonitos e bem produzidos. Agora, para quem vem pela segunda vez a capital argentina, há uma série de alternativas para escutar e/ou ver tango de qualidade.

É para esses que escrevo a coluna de hoje, com algumas dicas.

A primeira sempre é o Centro Cultural Torquato Tasso. De longe, um dos melhores locais da cidade para se ouvir tango.

Este mês a casa recebe Juan Carlos Baglietto e Lito Vitale, um duo que já faz parte da música argentina e não tocava junto há nove anos. A dupla apresenta todas as sextas e sábados de novembro o disco «Postales del Alma», ganhador do Grammy Latino de melhor CD de tango.

Outra casa que vem se esmerando na programação é o Café 36 Billares, na Avenida de Mayo. Por 40 pesos (R$ 20,00) é possível ver este mês Esteban Morgado e quarteto (violão, violino, bandoneon e contrabaixo), apresentando o novo CD Sueño Porteño, que inclui tangos, mas também peças de Seru Giran e Fito Paez.

As orquestras típicas de tango, experiência imperdível, se apresentam geralmente nas milongas (lugares onde as pessoas vão dançar tango, mais ou menos como as gafieiras). Os preços são muito acessíveis, em torno de R$ 15. Uma orquestra típica geralmente é formada por quatro bandoneons, quatro violinos, contrabaixo e piano. Além do cantor, claro.

Para ver onde elas estão é preciso sempre checar a programação. Há uma movida tangueira intensa. A agenda mais atualizada e diversa é a da revista Punto Tango.

As milongas também são os melhores lugares para ver dançar os bailarinos profissionais e aqueles com anos de praia. Normalmente há uma apresentação de um casal renomado antes de os “normais” entrarem na pista, mas tudo sem muita produção.

Nesse caso, é uma experiência antropológica visitar uma milonga tradicional como a Confeitaria La Ideal, Gricel, Salón Canning ou El Beso. Ou então uma bem moderna, como La Viruta. E até uma gay, La Marshall.

Há espetáculos com produção intermediária entre a casa de show e a milonga, apresentados em pequenos teatros. É o caso do espetáculo Fabulandia, formado por oito bailarinos, que está em cartaz agora no Querida Elena.

Para quem está com viagem marcada para este mês para Buenos Aires, a dica é conferir a programação de tango a céu aberto que o governo da cidade montou em frente ao Caminito, em La Boca, agregando um pouco de renovação cultural a uma área que está se fossilizando.

A programação está sensacional e inclui alguns monstros do 2×4. As apresentações são sábados e domingos, às 18h. Incluem aula de tango seguida de show. Dia 28 de novembro, por exemplo, se apresentam o Sexteto Mayor e o bailarino Juan Carlos Copes – dois nomes que são praticamente lendas do tango. O encerramento, dia 5 de dezembro, é com a orquestra El Arranque.

Outra dica é verificar no site doCentro Cultural San Martin por onde anda a Orquestra de Tango da Cidade de Buenos Aires. Normalmente os concertos são de graça. Este mês eles estão no teatro Presidente Alvear, em Corrientes, e no Teatro de La Ribera, em La Boca.

Espero ter ajudado aos buscam curtir em Buenos Aires o tango “de raiz”. Qualquer dúvida, é só deixar uma mensagem lá no blog.

Gisele Teixeira é jornalista. Trabalhou em Porto Alegre, Recife e Brasília. Recentemente, mudou-se de mala, cuia e coração para Buenos Aires, de onde mantém o blog Aquí me quedo, com impressões e descobrimentos sobre a capital portenha

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