Essência e atualidade do tango dançado, uma entrevista densa

La Porteña Tango/Entrevistas/Póker de Damas

Uma mesa redonda entre quatro mulheres, conhecidas profissionalmente pelo prestigio e trajetória, nos deu a oportunidade de resgatar o mais gostoso de uma conversa acerca da paixão que as une: o tango e a milonga. Em um encontro promovido por La Porteña Tango reuniu Olga Besio, Elina Roldán, Suzana Rojo e Enriqueta Kleinman. Elas falaram sem voltas sobre o baile, os bailarinos, a história e a atualidade do tango.

La Porteña Tango Pode-se dizer que algumas de vocês – não todas – são parte da geração que surgiu antes do espetáculo “Tango Argentino”, ou pelo menos nessa época. Depois veio o Tango x 2, a companhia Zotto e Milena Plebs, que revolucionou o baile desde o tango cenário (palco) também.

Suzana Rojo- Claro, bom. Eu formei parte do Tango x 2. De fato,  foi efetivamente uma revolução.

Enriqueta Kleinman – Para mim, vendo o tango argentino em Nova Iorque me deu uma agitação interna, eu fiquei encantada. Para a nossa geração foi convocador. Muitas pessoas vieram para dançar o tango a partir daí. E Tango x 2, Miguel Angel Zotto, foi outro momento de tirar o fôlego.

Elina Roldán -Bem, acho que Miguel e Milena foram na dança o que Piazzolla representou na música, uma revolução absoluta. Era impecável. Havia bailarinos de palco e de salão. Te deixava de boca aberta.

Suzana Rojo– Eles foram muito estudiosos. Além de um feito artístico havia um conhecimento das raízes tangueras, era real, havia cenas com muita realidade. Era uma parceria perfeita entre um bailarino do peso de Miguel e a técnica de uma bailarina de escola como é Milena Plebs.

Olga Besio – Em contraposição a isso o que deveriam entender muitos bailarinos que agora fazem tango cenário (palco) é que estão fazendo proveito de uma parte muito pequena porque as possibilidade que oferecem o tango de cenário são infinitas.

Suzana Rojo – Agora se vê muitas coisas aeróbicas… onde se dança tango, mas não “a música” do tango.

Olga Besio– E também em muitos casos, estão mal feitas.

Suzana Rojo – Queria dizer que logo depois desse grande resurgimento que experimentou o tango dançado no exterior a partir do espetáculo Tango Argentino, aqui tinha que ir à milonga para dançar, investigar porque se queria ser bailarina de palco primeiro tinha que passar por essa etapa de ir a uma milonga, ver, experimentar…

Olga Besio – Si, agora isso se perdeu bastante… agora o tango de palco se começa pelo “cenário” e não pelo “tango”.

Enriqueta Kleinman – Tanto é assim que há verdadeiros bons bailarinos de palco- alguns de renome – que não sabem dançar em outro âmbito, como numa milonga.

Elina Roldán – Os grandes bailarinos entre eles Copes, Arquimbau  e mesmo o Virulazo eram dançarinos de salão e depois de muito trabalhar levaram o seu tango para o palco e começaram a montar seus espetáculos.  Ao principio dos 90 no tango em Buenos Aires éramos poucos, vivíamos em milongas. Para ser um dançarino profissional tinham que te chamar e convocar. Agora alguns colocam um quiosque, montam algo mais ou menos, vão ao exterior.

La Porteña TangoAgora isso mudou drasticamente. Tem muito mais gente, muito mais milongas, mais professores e mais gente dançando e querendo aprender a dançar.Também aumentou a quantidade de gente que se dedica ao tango de palco.

Elina Roldán – O que se passa agora é que a camada de pessoas novas não sabe trabalhar em grupo, são todos individualistas, não?

Suzana Rojo – Em muitos casos não se dança o tango como deve ser. Claro, tem pautas, sabem passos, figuras, mas o tango não existe, não se vê em sua dança. Outra coisa que acontece entre os dançarinos de palco agora é que não tem personalidade. Os casais são todos iguais, dançam iguais umas as outras.

Enriqueta Kleinman – O abraço é o núcleo dessa comunicação que deve se dar entre dois pessoas que dançam tango. Porque requer entrega que outras danças não pedem.

La Porteña Tango -Como havia dito o maestro Juan Carlos Copes “ o mistério do tango está no abraço”

Olga Besio – Tanto no abraço verdadeiro como no construído (como posição de braços)… Esse é um dos problemas que temos no tango mais recente. Porque muitas vezes é um abraço falso. Aberto ou fehado mas tem que ser verdadeiro. Ombro a tal altura, o cotevelo em outra, a mão em outra posição e todas essas coisas descritas que as vezes são ensinadas, seguem uma rigidez que não tem nada a ver com o abraço do tango, que é sobretudo e em primeiro lugar um abraço verdadeiro, coisa de seres humanos, não de geometria.

Elina Roldán – Claro que são os falsos mandamentos do tango. Como comecei como bailarina profissional se dizia que do tango de palco “você se põe aqui e se move assim”. Nós começamos a investigar depois, porque se ensinava mal e se dançava em linhas rígidas. Começamos a buscar uma pedagogia para não repetir aquilo que não acreditávamos.

La Porteña Tango– A geração de vocês foi a que começou a buscar um método para ensinar a dançar?

Elina Roldán – Fomos autodidatas.

Olga Besio – Teve um momento que lamentavelmente que uma grande parte transmitiu os erros de alguns que diziam coisas e estabeleciam pautas que depois outros repetiram e que nem sempre eram corretas. Coisas como repetir de memória o “passo básico”, o abraço em noventa graus e outros pré-conceitos. Isso é basear o ensinamento em esquematizar e repetir, esquecendo o essencial.  Um bom professor deve transmitir verdades fundamentais, não verdadeiras exteriores ou superficiais. Deve transmitir em momento oportuno – não antes e nem depois – de da maneira adequada ao aluno.

La Porteña TangoAgora com a enorme quantidade de professores que existe esses problemas continuam?

Olga Besio – Nesses últimos anos existe uma nova situação. Por um lado, há muita gente ensinando sem saber o suficiente (nem de tango e nem de ensinamento). Por outro lado, agora há muitas maneiras, o que poderia ser bom, mas continuam certos clichês que são muito piores e também há um montão de clichês novos.

La Porteña TangoQuais por exemplo?

Olga Besio – O que falamos do abraço é um deles, já não com o mandamento dos noventa graus, pero se diz “mantenha essa postura e se mantenha durante toda a música”, ou certas maneiras de colocar a coluna… se escuta muitas coisas como essas.

Suzana Rojo -Há muitos métodos, mas poucos resultados. Dançarinos com grandes condições que não chegam a construir a sua dança como algo verdadeiro.

Olga Besio – Isso porque não entendem que o tango é algo natural. O abraço é algo que se dá entre as pessoas.

La Porteña Tango -Como um homem deve dançar o tango para que a mulher goste de dançar com ele?

Elina Roldán– Isso já é muito particular. É de cada uma. É como na vida. Você não se dá bem com todo mundo. Há uma empatia que você tem com alguns e com outros não.

Enriqueta Kleinman -Há homens ao olhar somente pela aparência você não dá nada e não parecem uma maravilha. Mas quando dança com eles sente algo diz “como dança esse homem”. Algo sólido, que te dá confiança. Um dançar muito à terra, com aprumo, com sensibilidade. Se estabelece um vínculo.

Elina Roldán– Um tempero interessante que eu sempre gostei é quando o homem sabe em que pé está.

Enriqueta Kleinman – Se não sabe, não sabe dançar.

Olga Besio – Isso tem a ver com os maus professores e maus alunos.

La Porteña Tango – Quem são os maus alunos?

Suzana Rojo – Os que vão para aprender de memória, por exemplo.

Elina Roldán – Eu tive alguns alunos que anotavam em um papel tudo que o diziam, tinham toda a aula escrita em um caderno. Eu sempre dizia a eles para não anotar nada. “Entreguem-se, porque se não não vão entrar nunca na verdadeira dimensão do tango”, era o que eu lhes dizia frequentemente.

Olga Besio – É a diferença de tomar o tango somente como aprendizagem ou tomá-lo como um feito vivido.

Elina Roldán – Se em uma aula só ficou o passo é certo que não aprendeu nada. O verdadeiro é que você experimente algo, sensações distintas. Isso é começar a aprender. Sem dúvida há muita gente que tem uma soberbia e um ego… que deus meu! Se acham Gardel.

Olga Besio– Lamentavelmente há muita gente que vai a uma aula e só registra o passo. Isso é o que eu dizia dos maus professores e maus alunos. A responsabilidade nem sempre é só do professor. É o que dizia Elina…

Que diferenças notam no processo de aprendizagem de alunos extrangeiros e argentinos?

Suzana Rojo – A atitude dos estrangeiros quando aprendem a dançar é lúdica, encaram a aprendizagem para se divertir, para conhecer pessoas. O abraço lhes chama muito a atenção.

Olga Besio – É certo. Mas essa atitude é mais recente nos extrangeiros, mas a camada – digamos- anterior, está contaminada por essa tendência a aprender de memória passos e figuras, firulas sem sentido. No lugar disso, é preciso ensiná-los a abrir os ouvidos o coração. Alguns professores ensinavam – e alguns continuam fazendo – sequências de passos para aprender de memória.

Elina Roldán – Como o caso do oito cortado, uma coisa ridícula.

Enriqueta Kleinman– Há sensações, permanência, enraizamento que os extrangeiros não tem o tango. A verdadeira aprendizagem passa por sua humanidade. Enquanto aqui é uma dança popular, intuitiva… Cerca-los desde a música até a naturalidade do movimento. A partir daí podem construir seu próprio “baile” (modo de dançar). O estrangeiro chega ao tango desde o intelectual ao lúdico. Fora de nosso país é uma dança exótica. Um dos grandes problemas é que muitos professores se dedicam a ensinar aquilo que se vê: figuras, coreografias , saltos – que faz com que todos dancem igual. O professor deve transmitir o que sabe e também deve dedicar a aprender humildemente.

Olga Besio – Quero falar algo em defesa dos maus professores. Não é exclusiva responsabilidade deles. O aluno com o passar do tempo tem que dar conta que algo está faltando e que não o estão ensinando bem.

Esta é apenas uma parte do  artigo publicado no site La Porteña Tango. Para acessar o texto na integra clique aqui

Adorno: uma aproximação à sua compreensão.

Revista Yo baile  Tango/Opinión

Por OlgaBesio.

“Para falar de adorno- e como sustentar tudo que pode vir depois- devemos em primeiro lugar, mexer nas origens da essência e existência do tango e da dança”.

É necessário deixar bem claro que a palavra dança não somente uma concepção que conota técnica. Muito pelo contrário, seu sentindo mais amplo e geral refere-se a toda forma de dança (em sentido particular) e de baile. E esse sentido é muito anterior, tanto histórica, cronológica, como antologicamente a toda concepção técnica.

Se entendemos a dança como um fato profundamente natural, que nasce no ser humano –  e falamos assim da dança popular, da qual o tango dançado é talvez nosso exemplo mais intrínseco, imediatamente descarta tudo que é supérfluo.

Então, O que é tango? A definição que já sabemos é muito simples. Um baile a dois, uma profunda comunicação com o outro e com a música. “Descobrimos” assim a ideia de diálogo. O diálogo entre corpos e pessoas, o diálogo com a música, o diálogo dos pés entre si e com o piso desenhando os famosos ochos e mil coisas mais. O diálogo dos pés e das perna com o ar, desenhando com precisão os boleos, de formas claramente definidas, criadas e recriadas cada vez.

Mas o que consiste o adorno também chamado as vezes de embelezamento e expressividade? O adorno consiste, precisamente, em expressar a essência do tango. De nada serve fazer adornos imediatamente como procedimentos meramente técnicos. Se não se compreende realmente de que se trata. As pernas da bailarina e também do bailarino equivalem a uma dupla de tango.Se abraçam, se juntam, dialogan, se acariciam.. tecnicamente isso se alcança a partir de um jogo de rotação das articulações. Mas este jogo de rotação não deve se tomar como algo friamente técnico, e sim como algo absolutamente natural e lógico, tão natural e lógico como qualquer lingaguem. Não quando meramente se movem.

Assim acabamos de derrubar vários mitos.

Primeiro : o de que os adornos são “movimentos que tem que aprender” ou “copiar”. De nenhuma maneira. A aprendizagem técnica é importantíssima, mas não basta. Há maravilhosos bailarinos e bailarinas que fazem do adorno uma verdadeira emoção, mas também vemos lamentavelmente a mera repetição de movimentos ou cópias de tal bailarino ou bailarina, sem ter entendido realmente sua essência. Nestes casos, geralmente o bailarino e bailarina “original” são excelentes e as cópias resultam às vezes em desagradáveis ou grotescas.

Segundo: de que o adorno é “questão de mulher”. De nenhuma forma. Adorno é todo o que fazem o homem ou a mulher sem interferir na marcação, no paso, na figura ou sequencia. Incluindo com exatidão na música e sem produzir nenhum tipo de vibração ou tiroteio. Para isso, é absolutamente necessário saber conduzir e seguir. Ter bom ouvido musical (sempre digo aos meus alunos que o homem e a mulher precisam se interar de que seu parceiro ou parceira fazem adornos – Isso se passou com um famoso bailarino que um dia se viu filmado e descobriu o que fazia sua parceira e porque havia bons comentários sobre ela).

Terceiro: O de que “para que a mulher adorne, o homem tem que dar tempo”. Isto vale quando se trata de uma coreografia, que se pode elaborar comum acordo ou em forma unilateral, ou bem por um terceiro (coreógrafo ou diretor). Mas no tango improvisado, de salão, está na inteligência, na habilidade da mulher em saber decidir se corresponde e em caso afirmado quando, como e qual adorno ou tipo de adorno é o mais adequado de acordo com as circunstâncias. Se a bailarina tem pouca experiência não é aconselhável que tente fazê-lo em uma milonga. Para isso servem as aulas de tango e práticas.

Quarto: falando de ouvido e de musicalidade. Alguns bailarinos e bailarinas (ou aprendizes) consideram que é suficiente escutar o ritmo. Outros, mais avançados falam de dançar a frase. Tem que saber que isso não basta. É necessário compreender também que a melodia e a peculiaridade e expressividade de cada peça musical, de cada versão. Neste sentido, a musicalidade que necessitam o bailarino e a bailarina muito mais do que o reconhecimento do rimto, do compasso, do tempo forte, o contra-tempo e todas essas coisas de que habitualmente se fala (as vezes inclusive mesclando-as e confundindo-as). A musicalidade que aqui se requer é uma verdadeira linguagem que pode traduzir, sobreinventar e voltar a criar uma e mil vezes o sentimento, a estrutura da composição, a essência da obra em particular que este homem ou esta mulher tem tem a felicidade de poder dançar aqui e agora.

Por último: é necessário mencionar que o adorno não se limita ao movimento e tão pouco se limita aos pés ou às pernas. Se bem que estes são talvez os mais visíveis. E sim que é de todo o corpo, é uma atitude, uma quietação, um fechar de olhos, uma pausa, uma sucessão de mudanças de velocidade e mil coisas mais que podem e muitas vezes necessitam de trabalhar tecnicamente, metodologicamente. Mas que definitivamente mostra o amor e a paixão de dançar tango como cada uma, cada um e cada casal é capaz de sentir o tango.

Tradução: Julita Kissa

Crédito Revista Yo bailo Tango.

Divulgação: La asociación AMBCTA.

Agradecimentos: Olga Besio.

*Para ler na íntegra o artigo em espanhol acesse aqui

OLGA BESIO

Docente, bailarina, coreógrafa e diretora de grupos de baile, com quase 30 anos de prestigiosa trajetória profissional no tango e todo uma vida dança-o. Nasceu em Buenos Aires, entre o Centro e Balvanera. Estudou danças, Bellas Artes e Filosifia, possui quatro títulos docentes (*). Participou em uma infinidade de congressos, festivais, eventos nacionais e internacionais. Criou o primeiro curso massivo e gratuito de tango em Buenos Aires, no Centro Cultural General San Martín.

Entre as suas especialidade referidas ao tango se destacam seus cursos, seminários, técnica de adornos, musicalidade técnica, composição e metodologia de ensinamento, assim como a criação de métodos de trabalho orientados especialmente a formação de crianças e adolescentes para dançar tango. Seu ensinamento e baile circulam há muito anos em todo o mundo em vídeos e publicações de numerosos médios de difusão argentinos e estrangeiros.

Dança tango desde muito pequena e aos cinco anos iniciou sua formação em dança. Cursou estudos na Escola Nacional de Danças, Escolas Nacionais de Bellas Artes, Faculdade de Filosofia e Letras na Universidade de Buenos Aires. Foi convidada a formar parte do Anuário Mundial “Who is Who in Dance” e do Conselho Internacional de da Dança, da UNESCO.

Dirigiu com Gustavo Naveira os grupos:  “Gustavo y Olga y su Ballet” e “Senior Ballet (composto por bailarinos maiores de 50 anos).Há dez anos criou o grupo “Tango com Niños”, no qual aplicou sua metodologia de ensinamento,  contou com a ajuda dos filhos Ariadna e Federico Naveira, bailarinos consagrados.