Uruguai para os pães-duros

Visitar o país – a nova vedete do turismo na América do Sul – não exige muito dinheiro no bolso: só a vontade de rodar por aí e o coração aberto aos seus encantos

 Alfredo Durães /Correioweb

Publicação: 02/11/2011 02:00

A Casa Pueblo, espaço cultural diante do mar de Punta del Este

O velho vizinho do Sul é uma opção legal para quem quer novos horizontes sem necessariamente ter que enfiar a mão no fundo do bolso. Na mais pura concepção do jeito mochileiro de ser, o Turismo embarcou numa viagem de 10 dias que começa no voo direto para a capital uruguaia, com tarifa bem em conta. De resto, é seguir a cartilha dos sem muito dinheiro e curtir passeios a pé, de ônibus e, vá lá, um táxi de vez em quando, para conhecer os lugares — alguns bem inusitados, como o Palácio Salvo, construção em estilo eclético, edificado em Montevidéu na década de 1920. E, claro, se hospedar nos chamados hostels, os hotéis econômicos (mas com banheiro no quarto, o supremo luxo da categoria). Dá para gastar pouco, sem deixar de se divertir. Enfim, uma questão econômica.

Não vai doer no bolso

 Com tarifas econômicas, os voos diretos de Brasília a Montevidéu permitem ao turista chegar lá em duas horas e 30 minutos, e conhecer em seguida os atrativos do centro histórico da cidade. Entre eles, o Mercado do Porto

As parrillas estão em todos os cantos do Mercado do Porto: para acompanhar as deliciosas carnes uruguaias, vá de cerveja ou medio y medio

A grana pode estar curta, mas dá para, com alguma imaginação, inovar e tirar uns dias de férias no exterior. Já pensou no Uruguai, o mais recente campeão da Copa América de Futebol e quarto colocado na Copa de 2010? O país pode ser bem econômico, a começar pela passagem aérea, que tem preços a partir de R$ 491 (preço sujeito a alterações), ida e volta, em voo direto de Brasília para Montevidéu. Ele é diário, num percurso que dura duas horas e 30 minutos. Uma dica é procurar pelos voos da Pluna e comprar em sites de passagens, que dividem o valor em até 10 vezes sem aumento (na página da companhia, dá para fazer apenas três parcelas).

Ou seja, a questão do deslocamento fica resolvida por R$ 49 por mês. Os aviões são novos, e o serviço de bordo da empresa, espartano — mas, também, vai querer o quê com uma tarifa dessas? Outro detalhe: você não precisa gastar nada com passaporte, já que o documento exigido no serviço de imigração do Uruguai é somente a carteira de identidade, emitida há no máximo 10 anos.

Outra dica: não é necessário pegar os táxis oferecidos no excelente Aeroporto Internacional de Carrasco para chegar a Montevidéu, que fica às margens da Bacia do Prata. Um ônibus da empresa Cutcsa faz o trajeto até o Centro Histórico por 31 pesos, algo como R$ 3. Valor bem menor do que os US$ 45 cobrados pelos Mercedes-Benz que batem ponto no terminal de passageiros. Se não encontrar o ponto do ônibus, não se intimide. Pode perguntar ao uruguaio, que é muito solícito, ainda mais com brasileiros.

Hotel
Que tal um hotel pelo equivalente a R$ 70 (a diária) por pessoa, próximo do Centro Histórico da capital, perto de muitas atrações? Ou uma refeição caprichada por cerca de R$ 30 para duas pessoas? Uma cerveja por menos de R$ 5? Pois é, amigo, o Uruguai fica bem ali, logo depois do Rio Grande do Sul. E por falar em gaúchos, um dos maiores hábitos do cidadão uruguaio (mulher, criança, homens, todos) é tomar chimarrão, “sendo a cuia quase uma extensão dos braços da população”, conforme estava escrito num folheto turístico.

O hotel, anote aí, pode ser o Palacio (hotelpalacio.com.uy), a um quarteirão da Praça Independência, na Rua Bartolomé Mitre, 1364. É muito bem situado, próximo ao centro histórico (dá para ir a pé, coisa de oito quarteirões) e a poucos metros do Teatro Solís, uma das boas atrações da cidade. Este, construído na metade do século 19, em estilo eclético, é uma belíssima casa de espetáculos que também recebe visitantes em vários horários, inclusive nos fins de semana, para um tour guiado (em espanhol, português e inglês) com entrada a 40 pesos, pouco menos de R$ 4.

E voltando ao item onde ficar, o Hotel Palacio fica num prédio que deve logo comemorar seu centenário. Basta dizer que o elevador é daqueles com porta pantográfica, sempre reluzente, com detalhes em cor dourada. Um certo ar de antiguidade domina o lugar, mas os quartos são amplos, têm banheiros individuais e um bom serviço de camareira. O preço por pessoa é, claro, sem café da manhã. O Palacio não é o único na região com tarifas baixas. Basta entrar no site http://www.hostelbookers.com, que conta com hotéis de várias partes do mundo a preços módicos.

Morcilla
Há muitos outros pontos turísticos em Montevidéu, mas um deles é emblemático. Trata-se do Mercado do Porto, construído com estruturas metálicas entre 1865 e 1868, na Rambla 25 de Agosto. Ele é praticamente tomado por bares, botecos e restaurantes, tendo como carro-chefe a parrillada (carnes de vários tipos feitas em grandes churrasqueiras).

Com pouco menos de R$ 50, dá para duas pessoas comerem e beberem bem. Não podem faltar as cervejas Patricia ou Norteña, duas estrelas locais. Ou, ainda, o medio y medio (mistura de vinhos espumantes seco e doce), algo só encontrado no Uruguai. Finalmente, não deixe de provar a morcilla (chouriço), servida nas versões salgada e doce. Atenção: essa última não vem com açúcar, mas sim sem sal.

Na capital, domingo é dia de feira de antiguidades nos arredores da Rua Tristán Narvaja, próxima à grande Avenida 18 de Julho. E não deixe de ver, aos sábados à tarde, o encontro de pessoas que se reúnem para dançar tango nas praças Fabini e Cagancha. Aliás, como em outras cidades da América do Sul, praças grandes e bem cuidadas reinam em Montevidéu.

Punta del Este light

 Aproveite para conhecer a cidade e seus arredores antes do verão, sempre badalado e de altos preços. Visitas à Casa Pueblo e à fábrica de doces de leite Lapataia têm de estar na programação.

Enquanto no verão o bicho pega, com milhares de visitantes, no inverno e na primavera Punta del Este é totalmente diferente: os turistas são poucos e quase não interferem na paisagem da cidade balneário. E mesmo esse número reduzido vem muito mais pelo prazer de apostar em seus cassinos do que propriamente para curtir suas belezas. O friozinho passa longe dos ambientes aquecidos e cheios de roletas, cartas e máquinas caça-níqueis.

As praias em torno de Punta del Este, como José Ignacio, só ficam cheias na alta temporada

Melhor do que apostar, no entanto, é usar o pouco dinheiro para ganhar autonomia no balneário. A dica é alugar um carro em Montevidéu (os preços são baixos, se comparados aos do Brasil), seguir até Punta e, em quatro rodas, explorar todos os cantos, como a praia oceânica de El Grillo.

Na baixa temporada, a paisagem urbana é bem diferente em Punta del Este, que tem população fixa em torno dos 30 mil habitantes. Uma boa dica é desfrutar da paisagem da Tambo Lapataia, uma fazenda a 12 quilômetros da cidade, numa área rural repleta de boas paisagens. Tambo é o nome que se dá às propriedades produtoras de leite e seus derivados. Com o doce de leite como um de seus principais produtos, a Lapataia é aberta ao público e tem espaço para caminhadas, lago e restaurante típico, onde não falta a tradicional parrilla.

Não deixe de comprar o doce, autêntica iguaria, que custa cerca de R$ 10 para uma embalagem de 500 gramas. Mas nem tente trazer o produto para o Brasil: é grande a chance de ele ser apreendido nos aeroportos brasileiros, porque a fiscalização sanitária do Ministério da Agricultura proíbe a entrada. Perto, a pouco mais 15 minutos de carro, você chega ao grande Lago Sauce, com suas praias de água doce, muitas casas de veraneio e uma paisagem bem bonita.

As formas únicas da Casa Pueblo, construída pelo artista Carlos Paez Vilaró: local mistura museu e hotel, e tem a melhor vista do mar em Punta
As formas únicas da Casa Pueblo, construída pelo artista Carlos Paez Vilaró: local mistura museu e hotel, e tem a melhor vista do mar em Punta

Quem vai na cidade tem obrigação de, pelo menos um dia, ir à vizinha Punta Ballena, bem próxima, e conhecer a Casa Pueblo. No lugar, sempre às 18h em ponto, ouve-se a voz gravada do artista Carlos Paez Vilaró (leia o Para saber mais) recitar, por alto-falante, um de seus poemas. O ambiente é tomado por ares mágicos, impulsionados pela arquitetura singular da Casa Pueblo, construída pelo artista, num penhasco à beira do Atlântico. Nesse instante, da sacada da construção, o turista afortunado mira o mar e, viaja, viaja, viaja. (AD)

Crédito: Alfredo Durães, jornal Correio Braziliense.

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