Gotan Project volta às raizes em “Tango 3.0” e mostra show no Brasil

30/09/2010 – 07h

PEDRO CARVALHO
Colaboração para o UOL

Integrantes do Gotan Project em foto de divulgação do álbum "Tango 3.0"

Ouça aqui o novo album do Gotan Project

Formado em Paris há dez anos a partir da união do argentino Eduardo Makaroff com o francês Philippe Cohen Solal e o suiço Christoph Muller, o Gotan Project é o principal nome do que veio a ser chamado de “tango eletrônico”. Misturando as origens dos três integrantes na música eletrônica, jazz e no próprio tango argentino, o grupo rapidamente espalhou pelo mundo o som inconfundível que lhes rendeu mais de 2 milhões de discos vendidos dos dois primeiros álbuns, “La Revancha Del Tango” e “Lunático”.

Agora, com o terceiro, “Tango 3.0”, a banda volta ao Brasil em outubro para apresentar o novo repertório, que o programador e tecladista Christoph Muller define como “uma volta às origens”. Os shows acontecerão no Rio de Janeiro no dia 6 de outubro no Vivo Rio, dia 7 em São Paulo no HSBC Brasil, dia 13 em Salvador no Teatro Castro Alves e dia 15 em Porto Alegre no Teatro do SESI.

Eclético, o novo trabalho traz, além do tango e da música eletrônica, referências a gêneros do sul dos EUA, como o rockabilly e o som de Nova Orleans. A primeira faixa, “Tango Square”, inclusive, conta com a participação de um dos grandes ícones da cidade berço do jazz, o cantor, tecladista e band-leader Dr. John.

Em entrevista ao UOL, o bem humorado Christoph Muller falou sobre os shows no Brasil, o processo de criação de “Tango 3.0” e a identidade multicultural do grupo.

UOL Música – Como você se sente voltando a tocar no Brasil?
Christoph Muller – Ótimo. É um prazer absoluto para mim. Não estou dizendo isso só porque estou falando com você, mas estive por todo o mundo e o Brasil é um lugar em que todos nós amamos tocar. É um país muito musical com um público ótimo. O público brasileiro é muito curioso e gosta muito de música. É uma parte muito importante do dia-a-dia de vocês e isso faz com que as platéias tenham a mente aberta e muito entusiasmo. Estou ansioso para voltar e tocar aí novamente!

UOL Música – Os shows desta vez serão muito diferentes da última visita? O que há de novo?
Muller – É um show completamente diferente. A maioria do repertório é formada por músicas do novo álbum e algumas inéditas, que gravamos junto com ele. Claro que também tocaremos algumas coisas antigas, do primeiro disco, como “Epoca” e “Santa María”, além de uma ou duas do segundo. Além disso, o cenário é totalmente novo, com vídeos novos também. Os músicos ainda são os mesmos, mas agora também temos um trumpetista, já que o novo álbum tem muitos arranjos com metais.

UOL Música – Como você compara as idéias e o som de “Tango 3.0” com os dois primeiros álbuns?
Muller – De certa forma, neste álbum quisemos voltar às origens. Ou seja, a um som mais eletrônico, apesar de que talvez isso seja difícil de perceber. A idéia foi trazer de volta o clima mais espontâneo que tínhamos no começo. Nosso segundo disco é mais próximo do tango clássico e tem um som mais limpo. Desta vez então, buscamos uma sonoridade mais suja e “sulista”, com idéias mais irreverentes e mistura de estilos.

UOL Música – O curioso é que junto com a produção mais eletrônica, o novo álbum também tem mais elementos de gêneros musicais “de raiz”, como o rockabilly e a música de Nova Orleans. Como vocês conseguiram combinar estes dois elementos quase paradoxais?
Muller – É algo que fazemos desde o começo. Gostamos de encontrar essas pontes entre estilos que não são obviamente relacionados, mas que funcionam bem juntos. Às vezes são pontes geográficas, como entre Buenos Aires e Nova Orleans, que são cidades com um ambiente parecido, por terem portos, estarem à margem de rios importantes. A origem e evolução do jazz são parecidas com as do tango. São estilos “primos” e fazem sentido juntos.

A combinação dos elementos eletrônicos e acústicos é um trabalho longo. Para fazer funcionar, não podemos pender demais para nenhum dos dois lados. Chegamos a essas idéias através da experimentação. Por exemplo, podemos inventar um riff meio bluegrass, que por sua vez foi inspirado no Led Zeppelin… e por aí vai. É quase uma brincadeira. Nós criamos as músicas com os três integrantes no estúdio juntos, fazendo um pingue pongue de idéias e experimentando com os instrumentos musicais e equipamentos eletrônicos disponíveis. Compusemos 20 músicas em 20 dias e fomos cortando até sobrarem as 11 do disco.

UOL Música – Uma surpresa do disco novo foi a participação do Dr. John. Como foi trabalhar com ele?
Muller – Foi uma colaboração muito especial, que aconteceu de um jeito engraçado. Estávamos trabalhando nesta música (“Tango Square”) e o Philippe estava indo para Nova Orleans por outros motivos não relacionados ao disco. Então, como já tínhamos pensado em usar o órgão Hammond nessa faixa, pensamos que se ele conseguisse que o Dr. John tocasse seria ótimo. O Dr. John já tem uma certa idade e só faz o que quer. Estava acontecendo um festival por lá na época e uma semana antes ele havia se recusado a participar de um show do Bon Jovi na cidade ou algo assim. Por sorte ele curtiu a idéia de tocar no nosso disco. O engraçado é que ao desembarcar no aeroporto de Nova Orleans, a primeira coisa que o Philippe viu foi um poster gigante do Dr. John.

UOL Música – Vocês são uma banda baseada em Paris, formada por integrantes de três nacionalidades diferentes e tocando uma combinação de música argentina com elementos internacionais. Qual é a verdadeira nacionalidade da banda?
Muller – Bem, algumas pessoas na Argentina dizem que somos uma banda argentina (risos). Bem, eu sei que a nossa música funciona bem em Buenos Aires, mas somos mais universais do que isso. O próprio tango viajou pelo mundo e se tornou um gênero universal, assim como a música brasileira. A bossa nova também é um estilo universal.

UOL Música O tango está presente no própio nome do grupo (“Gotan” é uma inversão das sílabas de “tango”). Às vezes vocês se sentem limitados por esta associação a um estilo em particular?
Muller – Basicamente é o que somos! É como começamos, a definição da banda. O interessante é que por isso temos esses limites que podem parecer uma prisão, mas na verdade têm o efeito contrário. Por explorarmos o folclore e os temas argentinos, temos que pegar esses limites e empurrá-los cada vez mais adiante. É por isso que não mudamos totalmente de estilo, não faria sentido. Dizem que você não chega ao tango, ele chega até você. Foi o que aconteceu comigo.


GOTAN PROJECT NO BRASIL

Rio de Janeiro
Quando:
6 de outubro, a partir das 22h
Onde: Vivo Rio – Av. Infante Dom Henrique, 85
Quanto: De R$ 80 a R$ 250
Ingressos: vivorio.com.br

São Paulo
Quando:
7 de outubro, a partir das 22h
Onde: HSBC Brasil – Rua Bragança Paulista, 1281, Chácara Santo Antonio
Quanto: De R$ 100 a R$ 300
Ingressos: hsbcbrasil.com.br

Salvador
Quando:
13 de outubro, a partir das 21h
Onde: Teatro Castro Alves – Praça Dois de Julho, s/n
Quanto: De R$ 80 a R$ 140
Informações: www.tca.ba.gov.br

Porto Alegre
Quando:
15 de outubro, a partir das 21h
Onde: Teatro do SESI – Av. Assis Brasil, 8.787
Quanto: De R$ 80 a R$ 140
Informações: www.centrodeeventosfiergs.com.br

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