Adorno: uma aproximação à sua compreensão.

Revista Yo baile  Tango/Opinión

Por OlgaBesio.

“Para falar de adorno- e como sustentar tudo que pode vir depois- devemos em primeiro lugar, mexer nas origens da essência e existência do tango e da dança”.

É necessário deixar bem claro que a palavra dança não somente uma concepção que conota técnica. Muito pelo contrário, seu sentindo mais amplo e geral refere-se a toda forma de dança (em sentido particular) e de baile. E esse sentido é muito anterior, tanto histórica, cronológica, como antologicamente a toda concepção técnica.

Se entendemos a dança como um fato profundamente natural, que nasce no ser humano –  e falamos assim da dança popular, da qual o tango dançado é talvez nosso exemplo mais intrínseco, imediatamente descarta tudo que é supérfluo.

Então, O que é tango? A definição que já sabemos é muito simples. Um baile a dois, uma profunda comunicação com o outro e com a música. “Descobrimos” assim a ideia de diálogo. O diálogo entre corpos e pessoas, o diálogo com a música, o diálogo dos pés entre si e com o piso desenhando os famosos ochos e mil coisas mais. O diálogo dos pés e das perna com o ar, desenhando com precisão os boleos, de formas claramente definidas, criadas e recriadas cada vez.

Mas o que consiste o adorno também chamado as vezes de embelezamento e expressividade? O adorno consiste, precisamente, em expressar a essência do tango. De nada serve fazer adornos imediatamente como procedimentos meramente técnicos. Se não se compreende realmente de que se trata. As pernas da bailarina e também do bailarino equivalem a uma dupla de tango.Se abraçam, se juntam, dialogan, se acariciam.. tecnicamente isso se alcança a partir de um jogo de rotação das articulações. Mas este jogo de rotação não deve se tomar como algo friamente técnico, e sim como algo absolutamente natural e lógico, tão natural e lógico como qualquer lingaguem. Não quando meramente se movem.

Assim acabamos de derrubar vários mitos.

Primeiro : o de que os adornos são “movimentos que tem que aprender” ou “copiar”. De nenhuma maneira. A aprendizagem técnica é importantíssima, mas não basta. Há maravilhosos bailarinos e bailarinas que fazem do adorno uma verdadeira emoção, mas também vemos lamentavelmente a mera repetição de movimentos ou cópias de tal bailarino ou bailarina, sem ter entendido realmente sua essência. Nestes casos, geralmente o bailarino e bailarina “original” são excelentes e as cópias resultam às vezes em desagradáveis ou grotescas.

Segundo: de que o adorno é “questão de mulher”. De nenhuma forma. Adorno é todo o que fazem o homem ou a mulher sem interferir na marcação, no paso, na figura ou sequencia. Incluindo com exatidão na música e sem produzir nenhum tipo de vibração ou tiroteio. Para isso, é absolutamente necessário saber conduzir e seguir. Ter bom ouvido musical (sempre digo aos meus alunos que o homem e a mulher precisam se interar de que seu parceiro ou parceira fazem adornos – Isso se passou com um famoso bailarino que um dia se viu filmado e descobriu o que fazia sua parceira e porque havia bons comentários sobre ela).

Terceiro: O de que “para que a mulher adorne, o homem tem que dar tempo”. Isto vale quando se trata de uma coreografia, que se pode elaborar comum acordo ou em forma unilateral, ou bem por um terceiro (coreógrafo ou diretor). Mas no tango improvisado, de salão, está na inteligência, na habilidade da mulher em saber decidir se corresponde e em caso afirmado quando, como e qual adorno ou tipo de adorno é o mais adequado de acordo com as circunstâncias. Se a bailarina tem pouca experiência não é aconselhável que tente fazê-lo em uma milonga. Para isso servem as aulas de tango e práticas.

Quarto: falando de ouvido e de musicalidade. Alguns bailarinos e bailarinas (ou aprendizes) consideram que é suficiente escutar o ritmo. Outros, mais avançados falam de dançar a frase. Tem que saber que isso não basta. É necessário compreender também que a melodia e a peculiaridade e expressividade de cada peça musical, de cada versão. Neste sentido, a musicalidade que necessitam o bailarino e a bailarina muito mais do que o reconhecimento do rimto, do compasso, do tempo forte, o contra-tempo e todas essas coisas de que habitualmente se fala (as vezes inclusive mesclando-as e confundindo-as). A musicalidade que aqui se requer é uma verdadeira linguagem que pode traduzir, sobreinventar e voltar a criar uma e mil vezes o sentimento, a estrutura da composição, a essência da obra em particular que este homem ou esta mulher tem tem a felicidade de poder dançar aqui e agora.

Por último: é necessário mencionar que o adorno não se limita ao movimento e tão pouco se limita aos pés ou às pernas. Se bem que estes são talvez os mais visíveis. E sim que é de todo o corpo, é uma atitude, uma quietação, um fechar de olhos, uma pausa, uma sucessão de mudanças de velocidade e mil coisas mais que podem e muitas vezes necessitam de trabalhar tecnicamente, metodologicamente. Mas que definitivamente mostra o amor e a paixão de dançar tango como cada uma, cada um e cada casal é capaz de sentir o tango.

Tradução: Julita Kissa

Crédito Revista Yo bailo Tango.

Divulgação: La asociación AMBCTA.

Agradecimentos: Olga Besio.

*Para ler na íntegra o artigo em espanhol acesse aqui

OLGA BESIO

Docente, bailarina, coreógrafa e diretora de grupos de baile, com quase 30 anos de prestigiosa trajetória profissional no tango e todo uma vida dança-o. Nasceu em Buenos Aires, entre o Centro e Balvanera. Estudou danças, Bellas Artes e Filosifia, possui quatro títulos docentes (*). Participou em uma infinidade de congressos, festivais, eventos nacionais e internacionais. Criou o primeiro curso massivo e gratuito de tango em Buenos Aires, no Centro Cultural General San Martín.

Entre as suas especialidade referidas ao tango se destacam seus cursos, seminários, técnica de adornos, musicalidade técnica, composição e metodologia de ensinamento, assim como a criação de métodos de trabalho orientados especialmente a formação de crianças e adolescentes para dançar tango. Seu ensinamento e baile circulam há muito anos em todo o mundo em vídeos e publicações de numerosos médios de difusão argentinos e estrangeiros.

Dança tango desde muito pequena e aos cinco anos iniciou sua formação em dança. Cursou estudos na Escola Nacional de Danças, Escolas Nacionais de Bellas Artes, Faculdade de Filosofia e Letras na Universidade de Buenos Aires. Foi convidada a formar parte do Anuário Mundial “Who is Who in Dance” e do Conselho Internacional de da Dança, da UNESCO.

Dirigiu com Gustavo Naveira os grupos:  “Gustavo y Olga y su Ballet” e “Senior Ballet (composto por bailarinos maiores de 50 anos).Há dez anos criou o grupo “Tango com Niños”, no qual aplicou sua metodologia de ensinamento,  contou com a ajuda dos filhos Ariadna e Federico Naveira, bailarinos consagrados.

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